Na infância, acreditamos que o mundo funciona de uma maneira relativamente simples: o bem vence o mal, os bons são recompensados e, depois de algum sofrimento, a história sempre termina bem.
É uma espécie de contrato inocente que fazemos com a existência até descobrir que ela é imprevisível.
À medida que crescemos, a vida nos ensina a olhá-la de formas diferentes: alguns se agarram à esperança; outros preferem a desconfiança.
Costumamos apelida-los de otimistas e pessimistas.
Otimistas procuram algum sentido por trás do aparente caos. Vislumbram possibilidades onde outros enxergam obstáculos. Conseguem extrair beleza daquilo que parece absurdo.
Pessimistas olham para o mundo e identificam o sofrimento como protagonista. Não necessariamente porque sejam incapazes de perceber a beleza, mas porque entendem que toda beleza é efêmera.
Um pessimista muito famoso foi Arthur Schopenhauer. Ele enxergava a existência como um eterno ciclo de falta e desejo. Desejamos porque algo nos falta; quando alcançamos o que nos falta, a satisfação dura pouco e logo outro desejo ocupa seu lugar. Se não desejamos, sentimos o vazio.
Para Schopenhauer, não tem pra onde correr. A vida sempre oscila entre a dor de não ter e o tédio de já ter.
É uma visão tão perturbadora quanto provocadora, já que, existe algo desconfortavelmente atual nessa ideia.
Vivemos em uma época que transformou o desejo em combustível. Somos constantemente convidados a querer mais — mais dinheiro, mais reconhecimento, mais produtividade, mais beleza, mais acessórios para o celular.
Muito antes do mundo consumista moderno, Schopenhauer percebeu que costumamos acreditar que a próxima conquista é a que nos fará mais completos.
Nessa lógica, cada desejo precisa sempre ser seguido por outro.
O problema não é desejar, mas imaginar que o próximo desejo será melhor que o último. E, como o jogo da vida parece obedecer a uma regra inevitável — “cada escolha, uma renúncia” — vamos deixando coisas e pessoas pelo caminho.
Parece existir uma sabedoria implícita no pessimismo; ele nos obriga a olhar para o fato de que precisamos sempre mais para ser feliz.
Por outro lado, um representante ferrenho do otimismo foi Godfried Leibniz. Ele chegou a uma conclusão radicalmente diferente sobre o problema do sofrimento; “Vivemos no melhor dos mundos possíveis” — argumentava ele.
Contudo, Leibniz não pretendia afirmar que vivemos em um mundo perfeito, sem sofrimento ou injustiça. Ele reconhecia a existência do mal. Mas, defendia que, entre os mundos que Deus poderia ter criado, este parece conter uma ordem que nos concede a liberdade de escolha.
Somos livres para escolher e o impacto do bem só pode ser verdadeiramente percebido porque, às vezes, escolhemos seu oposto, o mal.
Leibniz alegava que o mundo é feito de opostos para melhor compreendermos a vida — a coragem só ganha dimensão quando existe o medo. A compaixão só revela sua grandeza diante da dor. O perdão só tem significado porque alguém foi ferido.
Para Leibniz, o grande sentido da existência está na liberdade que temos de escolher entre o bem e o mal.
Mas, se para Schopenhauer desejar tem um preço e, para Leibniz, escolher tem uma consequência — não estariam falando a mesma língua?
Um olha para o preço da existência, enquanto o outro olha para o que podemos fazer com ela.
Um nos lembra que a vida dói. O outro, que a vida pode valer a pena, apesar da dor.
Se um nos previne da ingenuidade, o outro nos protege do desespero.
Entretanto, o excesso de otimismo pode nos fazer romantizar o sofrimento, menosprezar os riscos e acreditar que tudo vai dar certo no final. Uma típica visão religiosa e imatura do paraíso.
Da mesma forma, o excesso de pessimismo pode se tornar um inferno. Quando acreditamos que o sofrimento é a essência de tudo, deixamos de perceber aquilo que nasce justamente apesar dele: resiliência, criatividade, empatia e solidariedade.
O otimista demais não enxerga o abismo. O pessimista demais só enxerga o abismo.
Segundo a sabedoria chinesa, a maturidade estaria no caminho do meio entre eles — aprender a olhar para o abismo sem perder a capacidade de contemplar o céu acima dele.
Se a existência nunca foi uma promessa de felicidade, ela também não é uma sentença de sofrimento.
É algo ainda mais desconcertante.
Um território insólito de perdas e ganhos onde a liberdade é refém da consequência.
A vida nunca entrega significados prontos. Entrega traumas e alegrias. E, entre esses dois extremos — infinitas possibilidades.
É por isso que vivemos oscilando entre o insuportavelmente difícil sobreviver e o surpreendentemente fácil viver.
Diante disso, não deveríamos ser aprisionados pelo pessimismo porque nenhuma coleção de sofrimentos é capaz de explicar tudo aquilo que podemos criar a partir deles.
Nem tampouco deveríamos nos deslumbrar com o otimismo porque a vida nos derrama lágrimas que nenhum lenço consegue secar.
A existência sempre será um mistério inquietante e nunca descobriremos por que estamos aqui. Por isso, não interessa se este é o melhor ou o pior dos mundos possíveis.
Interessa que, entre Schopenhauer e Leibniz, entre o céu e o inferno, entre otimistas e pessimistas, o verdadeiro pulo do gato está em construir, com aquilo que temos, uma vida um pouco mais leve…
Cesar Gründling | @cesargrunn
Dentista, Escritor e Palestrante