A era da rotatividade: o que está acontecendo no mercado de trabalho?

Sou professor. Há mais de vinte anos exerço esse ofício. Carrego comigo duas gerações familiares de educadores, dos dois lados da família. No meu caso, tornei-me clínico da área da saúde e iniciei minha trajetória como professor de Odontologia, expandindo depois minha atuação para as ciências humanas — talvez porque sempre fui inquieto diante das perguntas existenciais. É justamente da união entre o biológico e o humano que identifiquei uma linha de pensamento.

Como coordenador de cursos de pós-graduação, tive a honra (e a responsabilidade) de liderar equipes e orientar colegas mais jovens, muitos deles dando os primeiros passos na profissão e na construção de seus próprios negócios. Meu método pedagógico sempre foi simples e pragmático: “O que eu gostaria de saber quando era inexperiente.” Em tradução direta: pessoas mais velhas já cometeram os erros que você está prestes a cometer.

Durante muito tempo, isso funcionou. Mas, com o passar das décadas, comecei a ter atritos em minhas equipes. No início, confesso, não compreendi. Passei a conversar com outros professores, tentando entender o que estava acontecendo não apenas comigo, mas com todo o mercado. A resposta começou a se desenhar lentamente: o que estava mudando eram as pessoas.

Alguns responsabilizavam a tecnologia. Outros diziam que era apenas um efeito colateral natural da evolução do mercado. Até que uma frase, dita por um aluno recém-formado, me atingiu como um choque de realidade: “Eu não quero viver a vida estressante dos meus pais.” E continuou: “Passei minha infância vendo meus pais chegarem em casa à noite cheios de preocupações, angústia e pouca energia para os filhos. Um belo dia, simplesmente se separaram. Eu quero uma vida mais light.”

Essa palavra — light — ficou ecoando. É um termo simbólico e abrangente. Algo como: “leve”, “sem pressão excessiva” ou “com menos conflito”.

Percebi naquele momento que o mundo duro, competitivo e exaustivo que ajudamos a construir estava produzindo uma geração diferente. Uma geração que enxerga o trabalho por outra lente. E, muitas vezes, nós, mais velhos, reagimos a isso rotulando, criticando e julgando. Eu fiz exatamente isso. Carreguei essa bandeira da crítica ao extremo. Revoltei-me contra essa nova — e para mim distorcida — forma de trabalhar e enxergar a vida.

Os resultados foram catastróficos. Tive conflitos sérios com colegas mais jovens, perdi a fluidez da liderança e vi equipes inteiras operarem sob tensão constante. Havia reclamações, atritos e inconformidades frequentes. Sempre havia trabalhado de um jeito; de repente, sentia-me pressionado a mudar tudo.

Foi quando uma reflexão desconfortável me cutucou: rotular pessoas sem compreender o contexto histórico e existencial no qual elas foram geradas é um erro clássico das gerações anteriores. Talvez alguém nascido nas décadas de 50 ou 60 não suportasse as condições extremas que seu bisavô imigrante enfrentou ao chegar em terras inóspitas um século antes. Talvez dissesse: “Eu jamais conseguiria viver a vida cinza e exaustiva do meu bisavô.” Acontece que esses pioneiros não tiveram escolhas — e foi graças a isso que seus descendentes puderam viver de outra forma. O mesmo ocorre agora. As novas gerações que chamamos de “filhinhos mimados” simplesmente não precisa passar pelas mesmas privações. E, mesmo que você ache que devam, elas não vão. E esse fenômeno não é local. É global.

O economista Ricardo Amorim comentou recentemente que a rotatividade recorde e pedidos de demissão indica mudanças profundas no mercado, não apenas flutuações estatísticas. Empresas estão sendo forçadas a repensar como atrair e reter talentos em um cenário onde o trabalhador tem mais opções — e mais critérios.

Todos sabem o quanto custa perder alguém e iniciar esse ciclo novamente. Mas isso não é exclusividade do Brasil. E, ao que tudo indica, por mais que resistamos, não haverá retorno ao modelo anterior, pelo menos, a longo prazo.

Esse movimento primeiro ficou conhecido como Great Resignation — ou a Grande Renúncia — quando, após a pandemia de COVID-19 em 2021, milhões de trabalhadores pediram demissão, principalmente nos Estados Unidos. O que parecia um fenômeno localizado tornou-se uma espécie de “segunda pandemia”, espalhando-se pelo mundo. Todos esperavam que isso fosse estabilizar, mas não aconteceu como o esperado. Ficamos diante de uma questão inevitável. O que realmente estava por trás disso?

A partir daí, iniciou-se uma longa sequência de constatações. Uma delas foi a descoberta coletiva de que tínhamos muito pouco controle sobre nossas próprias vidas. Que viver sem significado, propósito e qualidade de vida simplesmente não fazia mais sentido. Mais tarde, relatórios, redes sociais e pesquisas convergiram em um ponto: as pessoas estavam valorizando mais equilíbrio, bem-estar emocional e sentido no que faziam no lugar de estabilidade a qualquer custo.

No passado, isso era naturalmente improvável. O mercado era menor, as carreiras eram lineares e a ideia de permanência era quase um valor moral. Esse modelo de sociedade criou maior conforto, tecnologia e longevidade. Isso produziu algo inevitável: uma reconfiguração do que chamamos de sacrifício aceitável.

No final dos anos 80 e ao longo dos 90, a própria evolução das ciências médicas também ampliou a consciência sobre saúde física e mental. As pessoas passaram a viver mais — e decidiram que não queriam passar tanto tempo adoecendo para trabalhar.

Eu sofri com isso. Formado em uma cultura acadêmica baseada em pressão, metas e desempenho, enxergava as gerações seguintes como o maior exemplo do colapso do bom senso. Mas o que eu não conseguia enxergar eram pessoas que não buscavam mais apenas um emprego, mas uma experiência de trabalho.

Flexibilidade de agenda, questionamento a modelos rígidos, rejeição da pressão constante — tudo isso aparecia não como um discurso aberto, mas como um novo comportamento silencioso. E os sintomas evidentes eram recusas discretas, desligamentos repentinos e rotatividade elevada. Meus alunos mais jovens eram colegas que mudavam de emprego com facilidade e, em nossas equipes, geravam atritos com profissionais experientes, moldados no “trabalho duro”.

Como educador, eu presumi que isso deveria estar sendo pesquisado. Então, encontrei estudos apontando que a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) troca de emprego com muito mais frequência, priorizando fatores que vão além do salário. A geração Y (nascidos entre 1981 e 1996) acabou achando interessante esse movimento e passou incorporá-lo com ressalvas. Parte da explicação está na internet que acelerou comparações, expôs bastidores e reduziu a tolerância a ambientes que não oferecessem espírito de grupo (pertencimento), bem-estar ou propósito. O resultado é claro: as pessoas não querem mais apenas trabalhar — querem viver enquanto trabalham.

Somam-se a isso vieses econômicos como custo de vida elevado, baixas perspectivas de crescimento real e a invasão constante do trabalho na vida pessoal por meio de smartphones que vibram o tempo todo no bolso. Construímos um mundo tecnológico fundamentado em multiproblemas, onde demandas pessoais e profissionais pipocam o tempo todo em dispositivos eletrônicos. Não podemos mudar a evolução da tecnologia, mas aprender a lidar melhor com ela será o grande desafio das próximas gerações.

Esse debate renderia dezenas de artigos. Mas o ponto central é evidente: produtividade com bem-estar será o eixo do trabalho nas próximas décadas. Ambientes pesados, ausência de pertencimento e desprezo pela saúde tornaram-se fatores de evasão. As taxas de desligamento talvez até se estabilizem em algum momento, mas o conceito de trabalho tradicional será permanentemente transformado.

Do ponto de vista de saúde, evitar o esgotamento profissional deixou de ser uma opção para se tornar necessidade. As pessoas entenderam que só têm uma vida, que ela é mais longa do que antes e que cuidar melhor dela gera um bem-estar mais duradouro. Basta observar a ascensão dos cuidados com o corpo, a mente e a busca por um sono de qualidade que tem se evidenciado em academias, lojas de suplementos e consultórios médicos.

A insônia, hoje, afeta quase metade da população mundial. Tornou-se um dos grandes males que corroem a produtividade e o bem-estar. A angústia e as preocupações excessivas estão entre as suas principais causas. Dormir bem virou um ato de resistência. A famosa frase da minha época: “trabalhe enquanto eles dormem”, hoje é entendida como: “faça isso e morra antes!” As pessoas estão mudando. E, com elas, o trabalho muda. Por fim, transforma-se o mundo.

Até que ponto as novas gerações estão iludidas ou certas, só o tempo dirá. Mas o que os dados mostram é que elas buscam trabalhar com menos violência, escolher com mais critério, sustentar pausas sem a mesma culpa dos seus pais e tratar o sono de qualidade como prioridade existencial. As gerações precisam aprender umas com as outras, mas, sobretudo, compreender que suas diferenças não são um erro — apenas uma evolução natural e inevitável.

Por um bom tempo eu não digeri bem essa ideia e fui um crítico: “quer dizer que enquanto alguns querem uma vida mais “light”, eu preciso trabalhar por eles?” Mas como diria o autor existencialista Søren Kierkegaard: “a escolha é sempre individual”. E cada vez mais teremos de lidar com pessoas que pensam diferente.

Se eu quiser voar mais alto, preciso fazê-lo com sabedoria — respeitando que nem todos que caminham comigo têm o mesmo objetivo, mas ainda assim podem contribuir dentro de seus limites. Se eu insistir em lutar contra as novas tendências, acumularei angústia, perderei o sono e limitarei exatamente aquilo que, hoje, todos valorizam: produtividade com bem estar.

A pergunta que fica não é sobre os outros. É sobre mim: vou atualizar minha postura para construir relações mais saudáveis no novo mundo do trabalho — ou pretendo insistir em alimentar ressentimentos e pagar com a minha própria saúde por não aceitar que o mundo mudou? Eis a questão…

Cesar Gründling
Dentista, escritor e palestrante

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