O verdadeiro indicador de bem-estar no trabalho é a energia que você sustenta.
Não tenho dúvidas que o potencial humano não nasce apenas do talento, aliás, a muitas pessoas sobra talento, mas falta energia para coloca-lo em prática. Apesar de o contrário também ser verdadeiro, ao que parece, pessoas que modificam o mundo são aquelas que identificam seus talentos, aprendem a produzir energia de forma eficiente e, por fim, canalizam-na na direção de suas metas. Trivial, não? Mas, qual a razão de termos tanta gente não chegando nem perto disso?
Antes de qualquer coisa, conseguir gerar energia em quantidade e qualidade é, sobretudo, primordial para poder canalizá-la. Quantidade insuficiente de energia faz desistir antes de uma tarefa ou realiza-la aquém do que poderia. Da mesma forma, produzir energia de baixa qualidade é sinônimo de menor capacidade de foco e concentração, o que invariavelmente leva a decisões tomadas sob um campo mental estreito, com menor percepção de alternativas e variáveis. Em outras palavras, o cérebro opera com menos prudência, precisão e clareza.
O conjunto formado pela energia física, mental e emocional constitui a tríade fundamental que sustenta qualquer forma de desempenho. É dela que nasce a lucidez para decidir, a presença para criar e a serenidade para persistir.
Contudo, um ruído ensurdecedor na sociedade moderna nos faz confundir performance com esforço. Vivemos um tempo onde a exaustão é celebrada como mérito, e o descanso visto como perda. Não à toa é que estamos ouvindo cada vez mais vozes enaltecendo a importância cabal do bem-estar no trabalho. Todos desejamos sentirmos bem no local onde passamos a maior parte da vida, mas temos dificuldade em identificar quais fatores são determinantes para isso.
Costumamos responsabilizar o estresse e nos esforçar para combatê-lo; entretanto, bem-estar não significa ausência de estresse, mas sim a capacidade de se recuperar efetivamente diante dele. E isso está ligado à energia que somos capazes de gerar e o modo como a empregamos. Produtividade com bem-estar, portanto, é uma questão energética. Sem energia não fazemos muita coisa. É o orçamento biológico entre o que você gasta e o que consegue recarregar. Entre o que drena e o que sustenta. Ambas as variáveis representam a diferença entre estar acordado e definitivamente estar presente.
Agora, considere uma conclusão essencial: se as pessoas passam a maior parte da vida em ambientes de trabalho, logo, é onde mais precisam da sua energia. Por isso, aprender a sustenta-la se torna uma condição primária. Essa é a principal razão porque devemos aplicar métricas para a fim aferir a energia das pessoas e o grau de bem-estar no trabalho.
Não medir o bem-estar nas empresas é o mesmo que gerir um orçamento sem controle do fluxo de caixa. Medir o bem-estar é diagnosticar a energia vital das equipes, possibilitando uma performance sustentável sem esgotamento. Essa prática é fundamental para antecipar riscos, reduzir custos com afastamentos e improdutividade.
Para isso, aplicar uma métrica segura considerando três componentes bem definidos é o primeiro passo para entender como melhor fazer a gestão da energia nas equipes, são eles:
- Componente avaliativo — satisfação: representa como um colaborador percebe o grau de satisfação em relação ao que faz. Como se vê no trabalho e sobre o reconhecimento por seus esforços. Satisfação gera oxitocina e dopamina — neurotransmissores que sustentam o engajamento e reduzem o estresse.
- Componente afetivo — emoções diárias: Como você se sentiu no trabalho na última semana que passou? O componente afetivo, diferente do avaliativo, acessa a qualidade da energia emocional dentro do ambiente de trabalho. As experiências emocionais positivas são neurociência aplicada. Alegria, cooperação e entusiasmo fortalecem o córtex pré-frontal, área da criatividade e do raciocínio estratégico. Em contraponto, ambientes emocionalmente tóxicos disparam o sistema de ameaça e eixo do estresse, suprimindo a mente criativa, o que reduz o foco, a empatia e as habilidades sociais de grupo.
- Componente do propósito — significado: sentir-se parte de algo maior que si mesmo, algo que dê um sentido à vida ativa os circuitos neurais da motivação intrínseca. É o que transforma o trabalho em expressão de identidade — e não em um mero emprego.
Esses três pilares compõem o confiável Índice Energético do Bem-Estar: uma métrica que não apenas revela como as pessoas se sentem, mas como estão, de fato, administrando a energia física, mental e emocional.
Empresas que mensuram o bem-estar criam ecossistemas de maior vitalidade onde a energia é cultivada, e não drenada. A gestão da energia individual deixou de ser uma teoria sem métricas para se tornar uma estratégia de sustentabilidade humana.
Quando alguém da equipe sofre burnout está revelando um colapso silencioso na rede. Pode ser reflexo de uma cultura corporativa pouco atenta ao que se passa na vida do indivíduo. Com o passar do tempo, índices significativamente maiores de absenteísmo, presenteísmo e rotatividade disparam ciclos de retrabalho que aumentam custos.
A ciência da performance nos mostra que o bem-estar é um pré-requisito para a produtividade. E tudo começa com um sono de qualidade. Dormir bem é permitir que o cérebro se reorganize para canalizar a energia mental e emocional e, por fim, regular a energia física. Colaboradores com sono em dia podem produzir de 30% a 50% mais.
Restaurar-se não se trata de um luxo moderno como tentamos fazer parecer — trata-se da infraestrutura para a performance com saúde. No fim, o bem-estar duradouro — no trabalho e na vida — não é um estado a ser alcançado, mas energia a ser gerida. Quem aprende a dominar a capacidade de se revigorar e direcionar esse ativo energético, tem mais chances de dominar o próprio destino e, assim, potencializar um trabalho em equipe.
O futuro das empresas e das pessoas será definido não apenas por quem produz mais,
mas por quem sabe sustentar equipes sem perder talentos. Os custos com doenças e rotatividade por questões de insatisfação no trabalho corroem silenciosamente o aparente lucro da produtividade a qualquer preço.
Sentir-se bem é uma questão de gestão da energia individual. Não existe felicidade sem produtividade com bem-estar. Até quando relutaremos em admitir que a energia é o grande capital humano da era da performance?
Cesar Gründling
Dentista, escritor e palestrante