Relacionamentos digitais: a perda da conexão autêntica

Vivemos o paradoxo histórico mais curioso da era moderna; nunca estivemos tão “conectados” tecnologicamente e tão desconectados como humanos. No âmbito profissional, mais de 60% das pessoas admitem ter relacionamentos puramente transacionais, enquanto na vida pessoal, cerca de 50% dos casamentos contemporâneos colapsam com menos de 10 anos, indicando uma triste tendência de carreiras menos consistentes e casamentos mais curtos sob o peso da incompreensão crônica. Seria isso uma franca crise relacional global?

Somos animais sociais, não por escolha, mas por biologia, e a falta de conexões saudáveis quase sempre nos adoece. A ausência de vínculos afetivos significativos afeta o cérebro da mesma forma que a dor física. Nossas decisões, bem-estar e, principalmente, nossa identidade são moldados em sociedade. Quando isolados, não apenas sentimos solidão, mas nossa imunidade cai, há um aumento persistente do hormônio do estresse e a ameaça de depressão dispara. Inclusive, o risco de morte precoce se torna eminente. Humanos com laços sociais pobres compartilham do mesmo risco de mortalidade que fumantes e pessoas com obesidade severa.

Viver em recorrente desconexão interpessoal, cercado de interações superficiais e agendas lotadas, é como morrer de sede em um mar de água salgada, rodeados de gente, mas desnutridos de vínculo. Ignorar isso é aderir, de corpo e alma, a uma sociedade que tem substituído conexões genuínas por performance profissional e tem trocado parceiros de vida como troca de roupa.

Que mecanismo social impiedoso foi esse que nos empurraram goela abaixo? O que nos faz ter relacionamentos profissionais cada vez mais competitivos ou de interesse ao invés de uma conexão autêntica? O que nos faz destronar o amor autêntico em nome de selfies de casal em redes sociais ou alianças de vitrine?

 A felicidade parece ter se tornado individualista o suficiente, ao passo que, quando surgem desafios no relacionamento, não pensamos duas vezes, descartamos o cônjuge “problema”, afinal, a fila anda e fileiras intermináveis de rostos bonitos esperam para nos curtir em aplicativos de namoro. No trabalho, colegas estão intolerantes, parece que ninguém tem mais saco para relevar erros, nem de ceder, nem de dialogar com franqueza. Com a ascensão do mundo digital, é tão mais fácil curtir à distância, bloquear pessoas, silenciar grupos, enfim, desconectar-se de alguém para se conectar a outro alguém também desconectado de si mesmo. Assim, vamos publicando sorrisos falsos em redes sociais e imagens que escondem nossa escassez emocional. Fotos que contam uma história não da vida que temos, mas daquela que gostaríamos de ter. Nos escondemos por detrás filtros com justificativas convincentes e, seja nos relacionamentos pessoais ou profissionais, o problema sempre são os outros. Outros que nos pressionam, outros que nos cansam, outros que não tem a consideração necessária com a gente.   

 Será possível vivermos mais plenos do que isso?

 Muito dessa realidade se deve a crise da atenção fragmentada, um buraco negro que suga vagarosamente a dinâmica dos relacionamentos na era tecnológica. Não paramos mais para ouvir atentamente, nem para perceber com profundidade o olhar do outro, quem diria interpretar uma expressão facial que revela mil palavras. Estamos sempre com os olhos na tela pela próxima notificação digital, sempre com um pensamento a frente da situação que vivemos. Pressa é novo ritmo, enfim, o algoritmo não pode esperar que paremos para ir no toalete, ele vai junto.

Quando antes, escrevíamos uma carta, colocávamos no correio e aguardávamos pacientemente duas semanas pela resposta de alguém. Agora enviamos e recebemos mensagens imediatas atormentados pela angústia e ansiedade da urgência. Nossos dedos digitam habilidosamente e, quando demoram para nos responder, adentramos o vazio emocional do “desprezo imaginário”. “Por que não me respondeu ainda?” Ignoramos que todos estamos respondendo a dezenas de mensagens por dia, centenas por semana, milhares por mês e milhões por ano.

 Diariamente, aplicativos e plataformas digitais nos obrigam a processar incontáveis gigabites de informações que nos soterram como avalanches de gelo, gerando um vórtice de emoções alternantes. Desatentos e pressionados por robôs, vamos da alegria da satisfação à tristeza da frustração conforme recebemos dados incessantes na tela. A informação virou um vírus e nosso cérebro, o hospedeiro.

Hoje, uma dieta controlada. Amanhã, compulsão alimentar. Agora, a plena lucidez, logo mais, um cálice de vinho. Não sabemos exatamente o que sentir ou consumir, afinal, é um algoritmo que nos diz o que vestir, como se comportar e o que comer. Tudo é tão rápido e são tantas as ofertas que nem percebemos a saturação sensorial que nos desorienta. Esse alto custo cognitivo tem uma consequência vil; atinge em cheio a qualidade de nossos relacionamentos. Cérebros congestionados se tornam naturalmente mais intolerantes e, ao mesmo tempo, vulneráveis a falhas atencionais não intencionais. Ruídos de comunicação que se acumulam até saturarem em atritos profissionais e conflitos conjugais.

Mas alguém sempre “paga esse pato”. Numa empresa, o menos produtivo perde o emprego. No casamento, ambos perdem tudo e seus filhos se perdem numa sórdida espiral de sofrimento e traumas.

Se reaprendêssemos a respeitar a forma como o cérebro funciona, seríamos agraciados com o maior dos prêmios que um ser humano almeja; relacionamentos de valor que somam na vida. Fundamentos acessíveis como observação atenta, tolerância empática e escuta ativa são capazes de reconstruir padrões interpessoais sólidos, gerando atração autêntica e natural, o que amplifica, de forma poderosa, todos os domínios da vida.

Somos movidos por paixões e nossas relações são o termômetro da saúde emocional para uma vida de qualidade. Quanto mais consistentes nossas conexões amparadas por um círculo social de apoio acolhedor e qualificado, mais sentido enxergamos em nossos propósitos e mais ampla nossa visão da vida.

Na era digital, sabedoria de verdade é saber o momento de se desconectar para se conectar melhor…

Cesar Gründling
Dentista, escritor e empreendedor

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